20.11.09

Monólogo Interno





Pessoa de poucas palavras

sou em discurso.
No entanto,
não deixo esconder-se o pranto
quando em mim tuas unhas cravas.

Choro de dor, não de espanto
quando me queimam tuas brasas,
quando tua raiva extravasas
sobre o meu tímido canto.

Não me surpreende a amargura
que usas como tortura
para calar-me a alegria.


O que me causa surpresa
é ver que vejo beleza
no sofrer do dia a dia.



(Silvia Schmidt)
 
 
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19.11.09

SONHO AZUL



Viajo na liberdade do meu sonho,

sussurro quente do azul
onde me deito.


Polvos e medusas desnudam o meu sono,
levam-me submerso
através do azul liquefeito,
até ao virginal desabrochar das pérolas.


O sonho incendiado, floresce na bruma
abrindo caminho no azul que me transporta
ao teu ventre de abismo bordado de corais.


No aroma inebriante dos mares nocturnos,
a realidade sucumbe à fantasia.


Bebo a cor do mar,
adormeço na invisibilidade da vida,
e desperto no respirar de uma concha…






(Albino Santos)
 
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18.11.09

Despejo



Ah! ... poupa-me da tua insanidade,

mente doente, fraca e mentirosa!
Afasta-te, palavra elogiosa,
por veneno concebida na maldade!


Tu és um espinho disfarçado em rosa!
Queres manchar a minha integridade,
a mim trazendo falsa santidade,
com tua lisonja e fala pegajosa?
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Quero-te longe do meu pensamento!
Quero habitar o teu esquecimento!
Quero distância das tuas caras todas!

Ah! ... poupa-me da tua insanidade!
Vive tua escolha de infelicidade!
Em outros termos:


vai-te ... e que te fodas!





(Silvia Schmidt)

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Calor...



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17.11.09

Murmúrio




Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.


Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- vê que nem te digo - esperança!
- vê que nem sequer sonho - amor!







(Cecília Meireles)

16.11.09

As Time Goes By



Como o tempo passa

enquanto ficamos sós...


Passamos nós pelo tempo
ou passa o tempo por nós?


Bebamos os dois à taça
O que afinal sou eu só


 ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.


 

(Fernando Tavares Rodrigues)
 
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14.11.09



Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos,

resta-nos um último recurso:
não fazer mais nada.
Por isso, digo, quando não obtivermos o amor,
o afeto ou a ternura que havíamos solicitado,
melhor será desistirmos e procurar mais adiante
os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce,
ou não, espontaneamente,
mas nunca por força de imposição.
Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;
outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa.
Nunca foram uma caridade mendigada,
uma compaixão ou um favor concedido.
Quase sempre amamos a quem nos ama mal,
e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim, repito, quando tivermos feito tudo
para conseguir um amor, e falhado,
resta-nos um só caminho...
o de mais nada fazer.






(Clarice Lispector)
 
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11.11.09



Mas é certo que a primavera chega.

É certo que a vida não se esquece,
e a terra maternalmente se enfeita
para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim.
Algum dia, talvez, os homens terão a primavera
que desejarem, no momento que quiserem,
independentes deste ritmo, desta ordem,
deste movimento do céu.
e os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,
e os ouvidos que por acaso os ouvirem
não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.


(Cecília Meireles)
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Pra não dizer que não falei das flores...

não as mesmas de vandré
mas outras, margaridas não, nem camélias
azaléias
ou girassóis...
...outras, mas não como as do cantor, embora


amadas, armadas - ou não.

não que eu saiba como ela é
mas ouço, presto atenção aos poemas
e temas
eu sei dos nós...
não que eu saiba aonde ir,
isso é só pra que não digam
que não falei das flores
e dores
dos espinhos
encravados na pele, no rosto, no braço,
 recorda do cheiro, cheio de pesar...
não que eu sugira seguir, reerguer do pó
aconselho sim que destrua, do caule à raiz
indo assim
até ferir a corola.
não que seja a opção com mais glória,
porém essa deixa-te livre para outro furto
surto de
sensações,
do modo que sempre se fez:
ser devorando ser
a não ser no nascer da simbiose
 esta, que não é o único meio de tocar a rosa,
mas é recurso para tê-la em verdade:
e ela não rasgue
suas mãos com o caule.

pra não dizer que não falei das flores
pra não dizer que não citei caminho
não ande
como se possuísse a terra
não guarde
pétala entre folhas de livro
se isso é guerra, não se espera
pois esperar não é saber,
e quem sabe faz a hora,
não espera acontecer.


(B.M)

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10.11.09

Que mundo grosso...



Que mundo grosso, gente avara...

– E mais e mais sem mais sabor!


Diz de você...
O quê, amor?


Que não tem vergonha na cara.
Mundinho avaro, mundo cego,
sempre disposto a julgar mal.

Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.





(Heinrich Heine)

9.11.09

A mulher deitada sobre o mármore



O respeito sabotou por décadas a vida daquele homem.
A escassez de atrevimento fez dele um covarde,
um “bunda mole”, um mané.
Uma criatura sem ímpeto, ousadia, determinação, coragem.
Nunca teve a decência de assumir riscos.
Pelo menos até o dia em que ele viu Fernanda dormindo.
Era reveillon e o ano velho já tinha ido embora
junto com várias latas de bohemia.
Enquanto a alegria entorpecia mentes e corações no jardim,
ele preferiu ficar na sala, de olhos grudados na mulher
deitada sobre o mármore.
Estava prestes a cometer uma loucura
que poderia desestabilizar anos de amizade.

O experiente cronista tinha razão:
o álcool acorda velhos sentimentos e acende
os pecados como numa noite de festa.
Por isso avaliou serenamente as possíveis conseqüências
que iria sofrer logo após o seu plano entrar em prática.
Precisava desesperadamente de um apoio moral
para justificar aquele desatino.
O apoio veio com a frase do poeta espanhol Félix Lope de Vega:
a felicidade é o preço da audácia.
Fez daquele pensamento o seu mantra.
Só não sabia exatamente qual seria o preço daquela ousadia.
Receberia um tapa na cara seguido de um retumbante
“filho da puta!” ou um sorriso sacana, do tipo:
 “Que delícia!”?
Pela primeira vez na vida apostou cegamente suas fichas.
Deslizou sorrateiramente a mão entre as coxas
morenas e macias de Fernanda.
Ela abriu os olhos devagar e perguntou com voz de sono:

- O que você tá fazendo?

Ele, cabisbaixo e constrangido, pediu uma dúzia de desculpas.
Estava tão envergonhado diante da situação
que a única coisa que queria era sumir daquela sala imediatamente.
E foi o que fez.
Mas depois de alguns passos ouviu um sorriso gostoso
e o convite que o trouxe de volta:

- Você não vai terminar o que começou?

Ele deu uma risada e sem nenhuma cerimônia
começou a masturbá-la.
Enquanto ela gemia e arqueava de prazer,
ele sugava e mordia seus seios fartos.
Seios que por tantas vezes povoaram seu imaginário erótico.
Aproveitou para ir mais longe.
Navegou de olhos fechados até ancorar na flora negra.
Um recanto que ele fez questão de explorar com a língua,
sem pressa, como se quisesse cristalizar no tempo
aquela arriscada e gostosa libertinagem.
Ela gemia alto, mas não o suficiente para chamar a atenção dos amigos.
Amigos que naquele exato momento gritavam no jardim o seu refrão preferido:


“Deixe-se acreditar


nada vai te acontecer


tudo pode ser


nada vai acontecer, não tema


esse é o reino da alegria”




(Marcelo Tavares)


8.11.09

Eu Não Sei Dizer Adeus


Eu não sei dizer adeus.

Adeus tem o som laminado
de farpa atravessando o ar
directa ao cerne da ferida

Nunca soube dizer adeus.

Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas
 as marcas impressas
e identificar meus sinais

Como dizer adeus?

Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis
marcas deixadas ao jeito de revisitação

Não direi adeus, jamais....creio!

Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado


Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!

 

 (Angela Santos)

7.11.09

Desejos



Onde estás alma minha

que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?

Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.

Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.


Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...
alma minha!






(Zoraida Díaz)
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5.11.09

Imagem: Marco Romano


A maior solidão é a do ser que não ama.

A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo,
do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.

Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,
as que são o patrimônio de todos, e,
encerrado em seu duro privilégio,


semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.


 

(Vinicius de Moraes)
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4.11.09

Por Amar II


Nudez é mais que roupas no chão.
É o peito aberto para a surpresa.
É a fé na falta de promessas.
Sua liberdade assistida,
longe do alcance infantil
das minhas inseguranças.
Intimidade é mais que peles se tocando.
São almas se entregando.
Sou eu vendado,
de mãos dadas com a sua presença.



(Alex Reis)
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3.11.09

Espelho



Olhei em teus olhos

como quem se debruça
sobre um rio sereno
e olhando bem no fundo
pressenti a mágoa e vi os sinais,
os sulcos, as marcas gravadas
trazidas pelo caminhar....


Olhei tua fronte adornada
aqui e ali
por levíssimos fios de prata
e a tua boca linda, vermelho sangue …
e desejei-te…

Nos teus olhos eu li,
a verdade que sentira
no teu rosto
entendi a madureza
que trazes em ti
na tua boca o beijo pressentido
que o timbre da palavra
deixou em mim


Nas tuas palavras,
a sabedoria, a inteireza,
a verdade , a alegria,
a mágoa, a serenidade
e até a luz eu senti…


A luz-guia que nos leva
ao cerne de almas irmãs
ao fundo do coração que treme
ao desejo lume que nos consome
ao sonho que nos traz juntas


e à vida que ligou
nossos caminhos aqui.






(Angela Santos)