07/03/2012




 
Entreversos
 
 

Minha reza
Proeza
de quem
Deuspreza

meu terço
um verso,
ondeDiverso
fico me


disperso me
vagando
entreversos


Por entre
trovas
trovões
me atingem


infligem me
a poesia
a agonia
a letargia
e a dor
do parto


Parto-me.



(Iago Souza)

Imagem: (Mecuro B Cotto)

06/03/2012





Catando os Cacos do Caos



Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.
Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.
Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.
Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção
Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim
Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora



(Affonso Romano de Sant’Anna)






"Triste coisa é querer bem a quem não sabe perdoar..."


(Renato Russo)


05/03/2012



 
Delicada Natureza



 
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PARADA CARDÍACA



Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.




(Paulo Leminski)

03/03/2012





Separação


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.




(Affonso Romano de Sant’Anna)



29/02/2012






Em frente porque atrás vem gente.
Voltar não é caminho e desistir é pra covardes.


O que a vida tirou, não devolve mais.
De nada adianta tanto a revolta quanto o conformismo.
Tentamos nos pendurar no passado, nos arremessar no futuro, sem sucesso.
Somos completamente incapazes de entender o simples fato de que a vida acontece,
quer a gente queira, quer não.
Sendo assim, de que tanto adianta falarmos sobre todas as nossas desgraças?
Tudo o que se ganha é a pena alheia.
De que adianta alimentar aquele instinto que embrulha o mais forte dos estômagos?
Na mesma proporção em que a vida bate, ela ensina.
A cada tombo, podemos escolher entre nos
tornarmos mais sábios ou indignados.
E de que mais é feita essa indignação além de puro egocentrismo?
Nós temos que continuar, guardar todo o drama lá dentro e seguir em frente.
Desistir é opção de via única e sem retorno.
Precisamos continuar, criar novos e bons momentos que nos traga algum propósito
.
Criar novas impressões, motivos pra sorrir, dias de felicidade,
para que tenhamos lembranças que não machuquem 
quando a vida vier e levar tudo embora novamente.




 (Larissa Caramel)


28/02/2012








Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.




(Fernando Pessoa)


27/02/2012








Sei que todos, algum dia,
acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama.
Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança,
mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais.
Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam.
Criança sabe disso.



 (Lya Luft)


23/02/2012




 
Da esquina da rua
Da esquina da rua
chegam vozes absortas.
Da esquina da rua
pessoas brincam de artistas.

Da esquina da rua
homens sonham com direitos iguais.
Da esquina da rua
uma linda menina tenta beijar a lua.
Da esquina da rua
cachorros ladram para um vulto que passa.
Da esquina da rua
um carro derrapa feito cavalo de lote.

Da esquina da rua
a poesia sazona o tempo.
Da esquina da rua
eu e minhas vontades
esperamos o tempo passar. 

 
   
           (Chico Miranda)


22/02/2012








Você é o seu sexo.
Todo o seu corpo é um órgão sexual, com exceção talvez das clavículas.




(Luís Fernando Veríssimo)

21/02/2012










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18/02/2012







Entre o Sono e Sonho


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.





(Fernando Pessoa)

16/02/2012




Antes do começo


Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.

O mundo
no entanto, não é real,
   o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.


 
(Octavio Paz) 

15/02/2012





Canalha Honesto


E me diga meu benzinho
de que são essas olheiras?
Pois são culpa do vizinho
que me alugou as orelhas!

Tocando samba e chorinho
pela madrugada inteira!
Mas fui pago direitinho
com putas e bebedeira.

Sim, sim, eu tava na festa
não nego, é feio mentir…

Eu sei que hoje só me resta
pelo seu perdão pedir.

Se me der faço a promessa
de TENTAR não repetir!




(Lucas C. Lisboa)






A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado


A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.




(José Jorge Letria)

13/02/2012



 


- Quem não procura, não sente falta, moço.
- Engano seu, pequena. A nostalgia tortura e todo dia
 o coração implora pedindo pra voltar.
- Porque não volta, então?
- A saudade é grande, mas o orgulho é ainda maior, menina.


 
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Medida


Também me dou
se me nego
por só me dar
toda inteira,
antes me doa
o ser falta
que porção
não verdadeira




(Elza Beatriz)



12/02/2012








Quando eu decidi ser uma cantora,
minha mãe me avisou que eu seria sozinha.
Basicamente, todos nós somos. A solidão vem com a vida.


(Whitney Houston)